Especialistas alertam que a simples oferta de exames não garante adesão da população às estratégias de prevenção.
A ampliação da infraestrutura para exames de rastreamento é frequentemente apontada como principal solução para melhorar a detecção precoce do câncer de mama. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico especialista em diagnóstico por imagem, apresenta que a experiência prática mostra que a existência de equipamentos e serviços não assegura, por si só, que as mulheres realizem os exames de forma regular. Neste cenário, educação em saúde é um componente decisivo para que as políticas de rastreamento atinjam efetivamente a população-alvo.
Em muitas regiões, há uma distância significativa entre a capacidade instalada do sistema de saúde e a adesão real aos programas de prevenção. Esse descompasso revela que barreiras culturais, informacionais e emocionais continuam limitando o alcance das estratégias públicas, mesmo quando os serviços estão disponíveis.
Por que muitas mulheres não aderem ao rastreamento?
A decisão de realizar exames preventivos é influenciada por diversos fatores que vão além do acesso físico ao serviço de saúde, informa Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues. Medo do diagnóstico, receio do exame, falta de informação clara e experiências negativas anteriores são elementos que impactam diretamente a adesão.

Em contextos de maior vulnerabilidade social, essas barreiras tendem a ser ainda mais relevantes, pois se somam a dificuldades práticas, como transporte, horários de trabalho e responsabilidades familiares. Nessas situações, a prevenção acaba sendo postergada, mesmo quando o serviço está disponível.
Para além desses fatores, a ausência de comunicação contínua e personalizada faz com que muitas mulheres não se reconheçam como parte do público-alvo do rastreamento, especialmente fora dos períodos de campanhas sazonais.
Comunicação como parte essencial da política de prevenção
A educação em saúde deve ser entendida como componente estrutural das políticas de rastreamento, e não apenas como ação complementar. Campanhas informativas pontuais têm impacto limitado se não forem acompanhadas de estratégias permanentes de orientação e diálogo com a população.
É fundamental que a comunicação utilize linguagem acessível, respeite contextos culturais e esteja integrada aos serviços de atenção básica, que possuem maior proximidade com a comunidade. Profissionais de saúde capacitados para orientar e esclarecer dúvidas desempenham papel central nesse processo.
Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça ainda que o uso de múltiplos canais de comunicação, incluindo escolas, associações comunitárias e meios digitais, pode ampliar o alcance das mensagens e reforçar a importância da prevenção ao longo do tempo.
Papel da atenção primária na construção de vínculo e confiança
A atenção primária em saúde é estratégica para promover a adesão ao rastreamento, pois permite acompanhamento contínuo e criação de vínculo entre equipes de saúde e pacientes. Esse relacionamento favorece a identificação de barreiras individuais e a oferta de orientações mais personalizadas.
Segundo o doutor Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, quando a prevenção é incorporada às rotinas de acompanhamento, e não tratada como ação esporádica, aumenta-se a probabilidade de que as mulheres realizem os exames no intervalo recomendado.
A confiança na equipe de saúde também contribui para reduzir o medo e a resistência, especialmente em relação a procedimentos que geram ansiedade ou desconforto, como a mamografia.
Infraestrutura é necessária, mas não suficiente
A existência de equipamentos, profissionais e vagas para exames é condição indispensável para o funcionamento dos programas de rastreamento, mas não garante, isoladamente, que a população será beneficiada. Sem adesão, a infraestrutura permanece subutilizada e os resultados em termos de redução de mortalidade permanecem limitados.
A efetividade das políticas públicas depende da articulação entre oferta de serviços e estratégias educativas contínuas, explica Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, junto a isso, investimentos em equipamentos precisam ser acompanhados de ações que estimulem a procura ativa e reduzam as barreiras de acesso percebidas pelas pacientes.
Essa integração é especialmente importante em regiões com histórico de desigualdade no acesso à informação e aos serviços de saúde.
Prevenção exige mudança cultural e políticas de longo prazo
A consolidação de uma cultura de prevenção não ocorre de forma imediata e exige políticas consistentes, continuidade administrativa e avaliação permanente dos resultados. Mudanças no comportamento em saúde dependem de tempo, confiança e repetição de mensagens claras e baseadas em evidências.
Tratar a educação em saúde como eixo central das estratégias de rastreamento é essencial para que os investimentos em infraestrutura e tecnologia se traduzam em benefícios reais para a população. Sem essa base, o sistema corre o risco de ampliar serviços sem alcançar quem mais precisa deles.
Ao integrar educação, atenção primária e acesso a exames, as políticas de prevenção ganham maior capacidade de reduzir desigualdades e promover diagnósticos mais precoces, cumprindo seu papel de proteger a saúde das mulheres de forma mais efetiva e duradoura, considera Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues.
Autor: Ana Santiago
