Ernesto Kenji Igarashi analisa que existe uma dimensão do trabalho em segurança que as métricas operacionais convencionais simplesmente não capturam: o custo psicológico acumulado por profissionais que convivem, de forma sistemática, com ambientes de risco, decisões de alto impacto e exposição repetida a situações de violência, morte e ameaça.
Esse custo não aparece nos relatórios de ocorrência, não é mensurado nas avaliações de desempenho e raramente integra os indicadores de gestão que chegam às mesas dos líderes de organizações de segurança pública e privada no Brasil. Mas ele existe, cresce com cada operação não processada emocionalmente e, quando não é reconhecido e tratado, transforma-se em risco operacional real e mensurável.
O que faz o estresse operacional se intensificar e deixar de ser uma situação temporária?
O estresse operacional se manifesta de formas que nem sempre são reconhecidas como tal por quem as experimenta. A hipervigilância persistente fora do ambiente de trabalho, a dificuldade de desativar o estado de alerta ao fim do turno, os problemas de sono recorrentes, a irritabilidade desproporcional em contextos domésticos e o embotamento emocional progressivo são sintomas que profissionais de segurança frequentemente normalizam como consequência esperada da profissão.
Ernesto Kenji Igarashi salienta que a distinção entre estresse operacional agudo, que é a resposta natural e temporária a um incidente isolado de alta intensidade, e estresse operacional crônico, que é o acúmulo progressivo de exposições sem processamento adequado, é fundamental para que organizações estruturem respostas adequadas a cada situação.
Por que o PTSD policial permanece invisível em tantas organizações?
O diagnóstico de PTSD (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) em profissionais de segurança é sistematicamente subestimado no Brasil, e as razões para isso são ao mesmo tempo clínicas, culturais e institucionais. Do ponto de vista clínico, muitos dos sintomas do PTSD policial em contexto de exposição crônica se apresentam de forma atípica: em vez do flashback clássico associado ao trauma único e delimitado, o profissional com exposição prolongada tende a desenvolver um estado de embotamento emocional, dessensibilização e desconexão progressiva, que é mais difícil de identificar tanto pelo próprio indivíduo quanto pelos colegas e superiores que convivem com ele cotidianamente.

Do ponto de vista institucional, a ausência de protocolos de triagem psicológica após incidentes críticos, de canais confidenciais de acesso a suporte em saúde mental e de lideranças treinadas para reconhecer sinais de sofrimento psicológico nas equipes cria um ambiente em que o problema simplesmente não tem como emergir. Ernesto Kenji Igarashi aponta que organizações sem esses mecanismos não estão livres do problema, apenas estão sem instrumentos para enxergá-lo, e essa diferença é enorme do ponto de vista da gestão de riscos humanos e operacionais.
Que elementos fundamentais as organizações de referência incluíram em seus protocolos de cuidado para garantir eficiência?
Ernesto Kenji Igarashi elucida que a transformação mais significativa nos modelos de gestão da saúde psicológica em organizações de segurança de alto desempenho foi a integração do cuidado ao ciclo operacional regular, e não seu tratamento como medida de exceção acionada apenas diante de crises já visíveis.
Organizações de referência em proteção de dignitários e operações institucionais de risco elevado passaram a incluir, como parte de seus protocolos, o debriefing psicológico estruturado após operações críticas, canais confidenciais de acesso a suporte em saúde mental sem impacto na avaliação de desempenho, treinamento de lideranças para reconhecimento de sinais de sofrimento psicológico nas equipes e programas de apoio à transição para profissionais que encerram carreiras em funções de exposição contínua.
A saúde psicológica dos policiais é fundamental para a eficiência operacional
A perspectiva mais avançada sobre a gestão do estresse operacional e do PTSD policial converge para uma conclusão que deveria orientar políticas institucionais de forma muito mais ampla: a saúde psicológica do profissional não é uma agenda paralela à da eficiência operacional, mas uma dimensão constitutiva dela.
Ernesto Kenji Igarashi resume que as equipes psicologicamente saudáveis tomam decisões melhores, mantêm o estado de alerta sem a degradação que o estresse crônico inevitavelmente produz, sustentam relações de confiança com colegas e lideranças e apresentam carreiras mais longas e produtivas. Cuidar do profissional, nessa lógica, é uma forma direta e mensurável de cuidar da qualidade e da confiabilidade da operação.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
