Pesquisas mostram que a exposição à IA generativa cresce no Brasil, mas metade das empresas ainda não sabe o que fazer com a tecnologia
Há uma distância considerável entre o debate sobre inteligência artificial que acontece nos eventos de tecnologia e o que de fato está mudando na rotina de trabalho da maioria dos brasileiros. Essa distância, porém, está diminuindo rápido demais para quem ainda acredita que tem tempo de esperar. Para 2026, a Gi Group Holding aponta a “Grande Requalificação” como prioridade estratégica: metade das empresas brasileiras ainda não utiliza IA de forma estruturada, e grande parte das que usam está em estágios iniciais. Brazil Economy
Esse dado é revelador por dois ângulos. Pelo lado das empresas, indica que há muito espaço para crescer. Pelo lado dos trabalhadores, indica que a janela para se posicionar antes da concorrência ainda está aberta, mas não vai ficar assim por muito tempo. O mercado que hesitou em 2024 está acelerando em 2026, pressionado por custos, pela disponibilidade de ferramentas acessíveis e pela pressão competitiva de setores que já colhem resultados concretos com automação.
O que os dados brasileiros revelam sobre exposição à IA
A pesquisa do FGV IBRE sobre o mercado de trabalho nacional oferece um retrato que vai além dos números globais. Hoje, 29,8 milhões de trabalhadores no Brasil, equivalente a 30% da população ocupada, têm exposição à IA generativa. Os pesquisadores identificaram ainda que mulheres e jovens têm maior exposição do que homens e faixas etárias mais avançadas, possivelmente pelo maior nível de escolaridade dos primeiros. FGV IBRE
Isso rompe com a narrativa de que a IA afeta principalmente engenheiros e cientistas de dados. Na prática, profissões que envolvem escrita, análise de documentos, atendimento qualificado e produção de conteúdo, funções que concentram muitas mulheres jovens com ensino superior, estão entre as mais expostas. Exposição, aqui, não significa necessariamente ameaça: pode ser oportunidade de ampliar produtividade. Mas depende de quem tem as ferramentas e o conhecimento para aproveitá-la.
O Relatório sobre o Futuro do Trabalho 2025 do Fórum Econômico Mundial aponta que empresas que integrarem agentes de IA em vendas, atendimento ao cliente e análise de dados terão ganhos de eficiência mensuráveis e maior velocidade de tomada de decisão. Isso trará pressão competitiva sobre empresas que mantiverem processos manuais. O resultado prático é que quem não adotar vai perder mercado para quem adotar. Seja Relevante
A corrida por talentos que ninguém consegue vencer com recrutamento
O mercado de trabalho de 2026 registra uma contradição clara: ao mesmo tempo que a automação gera preocupação sobre empregos, as empresas enfrentam dificuldade crescente para encontrar quem saiba trabalhar com as novas ferramentas. A competição intensa por especialistas em IA se acentua em 2026, e o descompasso entre o interesse por funções tradicionais e os cargos voltados à inteligência artificial deve perdurar por vários anos. Brazil Economy
Esse cenário produz um mercado de trabalho dividido: de um lado, profissionais com fluência em dados e IA disputados com salários acima da média; de outro, trabalhadores em funções operacionais sem atualização, pressionados pela automação que avança na base. Os dados mostram que o salário médio nacional deve chegar a R$ 3.548 em 2026, com forte disparidade regional: o Distrito Federal lidera com média de R$ 5.547 e São Paulo, com R$ 4.298. Brazil Economy
A requalificação interna nas empresas é a saída mais citada, mas enfrenta obstáculos práticos. Programas de treinamento levam tempo para produzir resultado, e o ritmo de mudança tecnológica é mais rápido do que os ciclos tradicionais de capacitação corporativa. A única estratégia sustentável é desenvolver a força de trabalho atual. Recrutar profissionais prontos em áreas de altíssima demanda é caro e, muitas vezes, inviável. Brazil Economy
Onde estão as oportunidades reais para quem quer se reposicionar
Nem tudo no cenário aponta para risco. Segundo pesquisa da Organização Internacional do Trabalho, apenas 2 a 5% dos empregos correm o risco de ser substituídos pela IA. O que muda é a composição das tarefas dentro de cada função, não o desaparecimento das funções em si. Isso significa que o profissional que entender o que a IA faz melhor do que ele pode redirecionar seu esforço para o que ela ainda não faz: julgamento contextual, empatia, liderança em situações ambíguas, criatividade aplicada a problemas inéditos. Gupy
O caminho para o profissional do futuro envolve adaptação. O foco se volta para o desenvolvimento de habilidades que as máquinas não conseguem replicar facilmente, como liderança, inteligência emocional e resolução de problemas complexos. A capacidade de aprender constantemente e de usar a tecnologia como uma aliada será o grande diferencial no novo cenário profissional. Estado de Minas
Quem esperar o mercado se estabilizar para então decidir o que aprender vai descobrir que o terreno já foi dividido. A janela de vantagem para quem se reposiciona agora é real, mas tem prazo. O Brasil de 2026 vive um momento em que a decisão de se qualificar em tecnologia ainda gera diferencial competitivo. Em dois ou três anos, isso será apenas o mínimo esperado.
Fontes consultadas:
- FGV IBRE: https://ibre.fgv.br/blog-da-conjuntura-economica/temas/impactos-do-avanco-da-inteligencia-artificial-no-mercado-de
- Brazil Economy: https://brazileconomy.com.br/talentos-carreira/2026/01/mercado-de-trabalho-em-2026-guerra-por-talentos-e-cargos-voltados-a-ia-em-alta/
- Fórum Econômico Mundial / FDC: https://sejarelevante.fdc.org.br/o-impacto-da-ia-no-mercado-de-trabalho-e-nas-carreiras/
- Gupy / OIT: https://www.gupy.io/blog/ia-mercado-trabalho
- Estado de Minas: https://www.em.com.br/trends/2026/03/7369842-o-impacto-da-inteligencia-artificial-no-mercado-de-trabalho-no-brasil.html
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
