Em meio às transformações recentes nas políticas de desenvolvimento urbano, Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, pontua que os projetos de requalificação de áreas portuárias representam uma oportunidade singular para a resolução de passivos ambientais históricos associados à gestão inadequada de resíduos sólidos acumulados ao longo de décadas de operação industrial e logística.
Armazéns desativados, pátios de manobra abandonados e orlas portuárias degradadas frequentemente concentram contaminação de solo por resíduos industriais, descarte irregular de materiais de construção e acúmulo de resíduos de operações portuárias que nunca receberam destinação adequada.
Vamos explorar ao longo deste texto como a gestão de resíduos se integra à agenda de requalificação portuária e por que essa integração é determinante para o sucesso dessas transformações urbanas. Acompanhe.
O perfil dos resíduos acumulados em áreas portuárias desativadas
As áreas portuárias desativadas ou em processo de reconversão de uso concentram resíduos com perfil de composição altamente heterogêneo, reflexo da diversidade de atividades que historicamente se desenvolveram nesses espaços. Resíduos de operações de carga e descarga, como embalagens industriais, madeiras de estiva, metais e resíduos de produtos transportados, somam-se a entulho de estruturas demolidas, resíduos de manutenção de embarcações, óleos lubrificantes e substâncias químicas utilizadas em processos de conservação e limpeza de equipamentos e instalações portuárias ao longo de décadas de operação.
Conforme detalha Marcello José Abbud, a contaminação do solo por hidrocarbonetos, metais pesados e substâncias químicas persistentes é uma das características mais recorrentes nas áreas portuárias em processo de requalificação, exigindo investigação detalhada da extensão e da profundidade da contaminação antes do início das obras de reconversão. Nesse contexto, a ausência de diagnóstico ambiental prévio adequado é um dos fatores que mais frequentemente atrasa e encarece os projetos de requalificação portuária, transformando o que seria um investimento em desenvolvimento urbano em um processo longo e custoso de remediação ambiental emergencial.

A gestão de resíduos como componente estrutural dos projetos de requalificação
A integração da gestão de resíduos ao projeto de requalificação, desde a fase de diagnóstico, é uma condição para que os cronogramas e os orçamentos sejam realistas e para que os novos usos previstos para a área sejam compatíveis com as condições ambientais do solo e do subsolo. Com efeito, planos de gerenciamento de resíduos específicos para cada fase do projeto, desde a demolição das estruturas existentes até a implantação dos novos equipamentos urbanos, permitem antecipar volumes, rotas de destinação e custos associados, evitando as surpresas que tipicamente comprometem projetos de requalificação que não contemplam essa dimensão desde o início.
Na concepção de Marcello José Abbud, projetos de requalificação portuária que incorporam a gestão de resíduos como critério de projeto, e não como exigência regulatória a ser cumprida minimamente, tendem a produzir espaços urbanos de maior qualidade ambiental e de menor custo de manutenção ao longo do tempo. Na prática, a seleção de materiais de construção com maior durabilidade e reciclabilidade, a preservação de estruturas existentes que podem ser reaproveitadas e a destinação adequada dos resíduos de demolição são decisões que impactam tanto o custo ambiental quanto o custo financeiro dos projetos.
Oportunidades de economia circular nos processos de requalificação portuária
Os projetos de requalificação de áreas portuárias geram volumes expressivos de resíduos de demolição que, quando gerenciados com critérios de economia circular, podem ser reaproveitados como insumos para as próprias obras de reconversão ou comercializados para outros canteiros na região. Estruturas metálicas, elementos de concreto armado, madeiras de qualidade e pedras de pavimentação são exemplos de materiais que podem ser desmontados, processados e reaproveitados, reduzindo o volume destinado a aterros e gerando receita que contribui para a viabilidade econômica dos projetos.
Segundo Marcello José Abbud, o potencial de aplicação dos princípios de economia circular nos projetos de requalificação portuária ainda é amplamente subutilizado no Brasil, onde a prática dominante continua sendo a demolição e o aterramento dos resíduos gerados. Nesse sentido, a adoção de metodologias de auditoria de materiais antes da demolição, que mapeiam o potencial de reaproveitamento de cada componente da estrutura existente, é um passo concreto para elevar a taxa de circularidade desses projetos e reduzir seu impacto ambiental total.
