Gustavo Khattar de Godoy, médico com especialização em radiologia torácica e telerradiologia, doutorado pela UNICAMP e pós-doutorado pelo Johns Hopkins Hospital, acompanha uma pergunta imediata que os serviços de radiologia precisam responder antes de qualquer debate sobre inteligência artificial na medicina: como garantir que o exame certo seja lido pelo profissional certo, no momento certo, sem que nada crítico se perca no caminho? Essa pergunta, aparentemente operacional, está no centro de uma transformação profunda no fluxo de trabalho radiológico.
Ao longo deste artigo, exploramos como a automação e a priorização inteligente estão redesenhando a rotina dos serviços de diagnóstico por imagem e o que isso significa para o papel do radiologista. Se você atua na área ou planeja atuar, continue lendo.
Por que o fluxo de trabalho tradicional em radiologia chegou ao seu limite?
Durante décadas, o modelo de trabalho na radiologia seguiu uma lógica relativamente simples: os exames chegavam em ordem cronológica, eram distribuídos entre os radiologistas disponíveis e laudados sequencialmente. Esse modelo funcionava razoavelmente bem quando o volume era controlável e a complexidade dos exames era mais uniforme. No entanto, nenhuma dessas condições se aplica ao cenário atual. Visto que o volume de exames cresceu de forma exponencial, a complexidade aumentou e a diversidade de modalidades de imagem tornou a gestão do fluxo um desafio técnico e gerencial de primeira ordem.
O resultado prático desse descompasso é conhecido por quem trabalha na área: filas que se acumulam, exames críticos aguardando laudo junto com casos de rotina, profissionais sobrecarregados e risco crescente de erros por fadiga ou por perda de prioridade. Para Gustavo Khattar de Godoy, esse cenário não é resultado de falta de competência das equipes, mas de um modelo organizacional que não foi desenhado para a escala e a complexidade que a radiologia atingiu. De forma que reformar esse modelo exige mais do que esforço individual: exige tecnologia, processos e liderança alinhados em torno de um objetivo comum.
Como a priorização inteligente está transformando a gestão dos exames radiológicos?
A priorização inteligente de exames é uma das aplicações mais concretas e imediatas da inteligência artificial no fluxo de trabalho radiológico. Sistemas capazes de analisar imagens em tempo real e identificar achados com características de urgência, como derrames pericárdicos, embolias pulmonares ou pneumotórax hipertensivo, podem reordenar automaticamente a fila de laudos, garantindo que os casos críticos sejam avaliados pelo radiologista antes dos casos eletivos.
Na perspectiva do médico radiologista Gustavo Khattar de Godoy, o impacto dessa tecnologia vai além da eficiência operacional. Já que ela tem potencial direto de salvar vidas, ao garantir que achados críticos não permaneçam invisíveis em uma fila longa enquanto o paciente aguarda conduta. Para os serviços de telerradiologia, em que o radiologista não tem contato presencial com a equipe clínica e depende exclusivamente das informações disponíveis no sistema, essa capacidade de triagem automatizada é ainda mais relevante, funcionando como um mecanismo de segurança adicional em contextos de alta demanda.

Qual é o papel do radiologista em um fluxo de trabalho cada vez mais automatizado?
À medida que a automação assume tarefas de triagem, organização e até pré-análise de imagens, uma questão inevitável emerge: o que resta ao radiologista? A resposta é direta e mais ampla do que parece. O radiologista em um fluxo automatizado não é substituído, mas reposicionado. Todavia, liberto das tarefas repetitivas e de baixo valor diagnóstico, ele passa a concentrar sua atenção nos casos que realmente exigem julgamento clínico sofisticado: achados ambíguos, correlações complexas entre imagem e clínica, decisões que envolvem incerteza e que nenhum algoritmo resolve com segurança.
Como aponta o especialista em radiologia torácica Gustavo Khattar de Godoy, essa transição exige do radiologista uma atualização de competências que vai além do técnico. Saber interpretar os outputs dos sistemas de inteligência artificial, reconhecer suas limitações e manter autonomia crítica diante das sugestões automatizadas são habilidades que precisam ser desenvolvidas de forma deliberada. O profissional que delega passivamente ao algoritmo compromete a qualidade do diagnóstico tanto quanto aquele que ignora completamente as ferramentas disponíveis.
Automatizar o fluxo é ampliar o impacto do radiologista, não reduzi-lo
Gustavo Khattar de Godoy conclui que a transformação do fluxo de trabalho em radiologia não é uma ameaça à especialidade: é uma oportunidade de elevar seu impacto clínico. No momento em que a automação assume o que é repetitivo, o radiologista pode se dedicar ao que é insubstituível. Aproveitar essa oportunidade, no entanto, exige preparo técnico, visão estratégica e disposição para atuar em um ambiente em permanente transformação. Essas são as condições que separam os profissionais que lideram essa transição dos que simplesmente a observam.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
